COMO PASSAR A PAIXÃO ÀS NOVAS GERAÇÕES?

Em conversas de entusiastas, já se tornou comum ouvir dizer “Os miúdos, hoje em dia, não querem saber de automóveis”. Ou então “Os meus filhos não querem saber disto para nada”.

O que mudou nas novas gerações? Ou será que foi o próprio automóvel a mudar? Ou terá sido o mundo?

Na realidade, é um pouco de tudo. O mundo e a noção de liberdade, estão cada vez menos associados à condução de um automóvel. Hoje um adolescente sente que já viu o mundo sem sequer sair de casa, o que não deixa de ser um pouco verdade. Mas falta o prazer de descer o vidro e sentir o vento na cara. A descoberta do imprevisto. Os cheiros e as sensações.

Sim, os automóveis do dia-a-dia podem ter perdido um pouco a magia para nós, que temos referências do passado, mas continua a haver automóveis apaixonantes, não necessariamente inalcançáveis.

Então qual a receita para poder passar a nossa paixão à próxima geração? Eis algumas dicas:

Não impôr
Todos sabemos que há uma fase na vida em que tudo que nos é imposto é liminarmente rejeitado e, depois, é mais difícil voltar atrás. Deixe que os seus filhos e netos convivam com os veículos antigos, mas não faça disso o centro de cada momento. Se vai a algum lado com o seu filho ou neto, vá no automóvel antigo, mas faça-o naturalmente. Deixe que os amigos deles vejam o seu clássico e espere que a reacção destes faça o seu trabalho. Não raras vezes, quando crescemos habituados a conviver com um objecto especial, é preciso que seja alguém de fora a mostrar-nos o quão especial ele é. O resto, virá naturalmente, quando o seu descendente perceber o reconhecimento dos outros.

Não privar
O excesso de zelo na preservação do seu clássico, pode levá-lo a ser muito restritivo na forma como o seu filho ou neto usufrui dele. Pôr os pés nos bancos é desagradável, sim. Mas muito pior do que isso, é o seu descendente não quiser pôr os pés dentro do clássico. Deixar o seu filho recém-encartado riscar o seu objecto de estimação num estacionamento, pode ser doloroso, mas mais doloroso será se ele se recusar a conduzir um clássico.
Faça sentir que o automóvel antigo é um objecto da família e que cada um é responsável pelos seus actos. Dê a entender a afeição que tem pelo veículo, mas não deixe que isso prive os outros de usufruir. A confiança reforça laços entre gerações.

Criar memórias
Não fique à espera que sejam os seus familiares mais novos a pedir para andar ou usar o clássico. Use-o com o máximo de frequência. Passeiem com ele, arrisque uma avaria em qualquer lado, uma história para contar, que passa a ser uma memória comum. Viajem de automóvel antigo. Festejem aniversários, façam piqueniques, tirem fotos juntos com o seu clássico. Só as memórias dão valor sentimental a um automóvel ou moto. Sem elas, todos são um conjunto mais ou menos genial de peças. Apenas máquinas. Com memórias, são um pedaço de nós que não morre e um elo de ligação entre gerações.

Participar em eventos
Não diga ao seu filho que vai ter de o acompanhar a um evento de automóveis, se não sentir que isso é a vontade dele. Diga-lhe que vão apenas encontrar-se com amigos. Ao chegar ao destino, então ele perceberá que os amigos partilham a mesma paixão, mas que o importante é o lado humano. Faça-o entender que um clube é uma comunidade, uma espécie de família.
Se os filhos de uns e de outros criarem laços dentro do ambiente dos automóveis antigos, facilmente perceberão o fascínio. E se viverem a sensação de aventura de que é navegar por um road-book, disputar um concurso de elegância ou uma prova de perícia, talvez percebam que um automóvel antigo não é apenas um objecto, mas um meio para descobrir uma infinidade de sensações que só nós conhecemos.