PERSONALIDADE: AURELIO LAMPREDI

O motor é o coração do automóvel e, por isso mesmo, é muitas vezes o que dita o seu sucesso e popularidade e o eleva ao estatuto de clássico. Isso faz dos engenheiros mecânicos e desenhadores de motores verdadeiros magos e peças fundamentais da indústria.

Vários nomes se eternizaram nesta arte, de diversas nacionalidades, mas poucos com o impacto de Aurelio Lampredi.

Nascido em 1917, começou a sua carreira nos estaleiros da empresa Odero-Terni-Orlando, dedicada à indústria naval, artilharia e maquinaria. Naturalmente, entre 39 e 45 e à semelhança de outros profissionais da mesma área, viu a sua actividade afecta ao desenvolvimento de motores para aviões de guerra.

Depois do conflito, chega à Ferrari em 1947, para sair logo de imediato para a Isotta Fraschini. Seria uma estadia igualmente curta, devido ao fim abrupto da empresa. Regressa então à Ferrari, onde desenvolve importantes motores, nomeadamente aquele que leva à primeira vitória de um Ferrari na F1, o que aconteceu em Inglaterra em 1951. Tratava-se de um V12 de 4,5 litros, com duas velas por cilindro, que equipava o Ferrari 375 de Froilán González.

Quando em 1952 a F1 adoptou o mesmo regulamento da F2, Lampredi desenvolveu um novo motor, de quatro cilindros e dois litros, para equipar o Ferrari 500 F2. Era um motor de dupla ignição e dupla árvore de cames, que competiu em simultâneo na F1 e F2, acumulando um incrível resultado de 14 vitórias em 17 provas, apenas nas épocas de 1952 e 53, arrecadando dois títulos mundiais.

Mais incrível ainda, é o facto de que nunca um piloto logrou partir um motor desenhado por Lampredi durante uma prova.

A extraordinária carreira de Lampredi nos Grandes Prémios, seria interrompida em 1955, quando a Ferrari adquiriu os “restos” da equipa oficial da Lancia, incluindo o fabuloso D24. A partir de então, a marca passaria a usar os V6 e V12 desenhados por Vittorio Jano, outro génio.

Lampredi mudou-se para a Fiat onde, em definitivo, gravaria o seu nome na indústria automóvel, ao desenhar dois motores preponderantes para a marca. O primeiro deles foi motor de árvore de cames à cabeça, que foi utilizado entre 1969 e 1997, com diferenças de pormenor. Equipou, desde o Fiat 128 até ao Lancia Dedra.

Talvez mais marcante pela sua fama, performance e até carreira desportiva, foi o motor “twin-cam”, que foi estreado em 1966 no Fiat 124 Special T 1400 e que só terminaria a carreira no ano de 2005, em automóveis como o Stilo. Depois disso, continuaria a ser produzido no Brasil e Polónia até 2010, equipando as derivações Fiat produzidas nesses mercados.

Pelo meio, o “Lampredi Twin-Cam”, equipou as grandes máquinas de ralis da Fiat e Lancia: Fiat 131 e os Lancia 037, S4 e Integrale, nalguns casos superando os 500cv de potência, com dupla sobre-alimentação.

De referir que Lampredi teve nesta fase o último grande papel da sua carreira, ao ser nomeado director da equipa de fábrica Fiat-Abarth e posteriormente Lancia-Abarth, entre 1973 e 1982, com o sucesso que se conhece.

Lampredi viria a falecer em 1989, em Livorno, a sua terra natal.