VINCENZO LANCIA NASCEU HÁ 140 ANOS

Foi no dia 24 de Agosto de 1881 que nasceu um dos grandes génios da indústria automóvel italiana, e um dos mais carismáticos.

Contabilista era o que deveria ter sido, se respeitasse a vontade do seu pai. Por vezes, a rebeldia compensa, mas Vincenzo poderia ter sido isso e muito mais.

Filho de um industrial da comida enlatada, cedo revelou o seu interesse e perícia para a mecânica. Já a escola, não era o seu ambiente favorito e, por isso faltava às aulas com frequência. O seu refúgio eram as oficinas que então pululavam em Turim, em particular a do construtor de bicicletas Ceirano, mais tarde construtor dos automóveis Welleyes. Foi ali que, aos 17 anos, Vincenzo teve o seu primeiro emprego, na função de… contabilista. No entanto, a sua curiosidade e interesse na engenharia levaram a que cedo se envolvesse noutras áreas e em 1899 trabalhava já como condutor de testes da Welleyes.

Por esta altura, a fábrica dos irmão Ceirano tinha já captado a atenção da Fiat que, reconhecendo a competência técnica e qualidade da engenharia, adquiriu a totalidade da empresa, pelo que Vincenzo passaria a ser empregado da Fiat. (Os irmãos Ceirano haveriam de aplicar o capital realizado na venda e continuar os seus negócios fundando também a célebre marca Itala, cuja existência foi igualmente curta.)

O jovem condutor de testes da Fiat provou nesta altura ser um piloto acima da média, já que acabaria por tornar-se piloto de fábrica, revelando um talento nato. Em pista, bateu consecutivamente o seu companheiro de equipa Felice Nazzaro.

Aos 25 anos, Vincenzo já tinha demonstrado as capacidades enquanto contabilista, mecânico e piloto. Chegava agora a altura de se por à prova no papel de empresário.

Em Novembro de 1906 é fundada aquela que viria a ser uma das mais notáveis marcas italianas de sempre. De imediato, a Lancia conquistou uma reputação associada à qualidade de construção e fiabilidade, para além da evidente vanguarda técnica.

O fundador continuava a fazer a maioria dos testes em estrada, por uma razão evidente: Vincenzo não era o responsável por pôr no papel as soluções técnicas. No entanto, tinha uma noção muito clara dos seus objectivos quando ao comportamento, características e qualidades dos Lancia. Vincenzo podia imaginar uma solução, mas recorria aos melhores desenhadores e técnicos para a concretizar.

Apesar de ser um indivíduo muito completo, era um líder inteligente, que sabia exactamente as tarefas que deveria tomar em mãos e aquelas que deveria confiar a especialistas. Saber reconhecer as suas próprias limitações foi fundamental para atingir o nível de excelência que desejava para as suas criações e o resultado estava à vista.

O Lambda, produzido entre 1922 e 1931, foi o primeiro produto a evidenciar a genialidade da marca. O modelo foi pioneiro na utilização do chassis monobloco e da suspensão independente e era movido por um evoluído motor V4 que, na versão de 2600cc, debitava 69cv. A extraordinária agilidade e rapidez, fizeram dele uma referência para toda a indústria e o carácter arrojado e inovador perdurou nos Aprilia, Appia, Aurélia, Fulvia, Stratos e outros modelos notáveis da marca.

infelizmente, Vincenzo morreu num momento de ascensão da sua empresa. Bon-vivant, adorava ópera e diz-se que tinha até talento para a cantar! Gostava de confraternizar, comer, e beber, o que poderá ter contribuído para a morte prematura por ataque cardíaco, quando tinha apenas 56 anos.

Para a história ficou não só um visionário da indústria automóvel, mas um empregador progressista e um chefe de família muito acarinhado pelos seus.

O filho Gianni tomou conta dos destinos da marca, mas a sua paixão pela competição resultou numa série de maus investimentos que levaram a mãe a vender a quase totalidade da empresa, que andou de mão em mão, alternando sucessos com sobressaltos, até se tornar numa sub-marca do grupo Fiat Chrysler.

Um destino inglório para uma insígnia com um enorme legado histórico e para a memória de uma das mais geniais personalidades da história automóvel.