TRÊS MOTOS CLÁSSICAS PARA PRINCIPIANTES

Se é um entusiasta dos veículos antigos que só agora considera enveredar pelas duas rodas, o seu próximo problema é tomar uma decisão, dado que há tantas opções.

Deixamos aqui três opções radicalmente diferentes para diferentes tipo de utilizador.


Casal 125 K76


Se desejasse comprar um automóvel de fabrico nacional, as opções seriam escassas. No caso das motos o cenário é ligeiramente diferente. É incontável o número de modelos de fabrico 100% nacional.

Assim, apelando à veia patriótica, este modelo é uma proposta interessante.

O fabrico de motociclos portugueses chegou a ser altamente proveitoso e teve grande impacto na sociedade e sua mobilidade. Contudo, isso só foi possível graças a leis proteccionistas que, quando terminaram expuseram as debilidades e anacronismos dos modelos portugueses, que agora tinham de lutar com modelos japoneses, entre outros.

Antes da quase inevitável extinção, a Casal envolveu-se na competição, o que viria a inspirar a marca para mais altos voos, lançando um modelo off-road de 125cc.

Através de uma parceria com a italiana Moto Villa a Casal criou uma moto de competição que dominou nas pistas de motocross e enduro pelas mãos do talentoso Mário Kalssas. O motor e quadro foram concebidos originalmente pelos irmãos Francesco e Walter Villa. Foi com base nestes elementos que veio a nascer a Casal K276.

O motor da K276 era a unidade baptizada de M233, uma evolução do nascido no início dos anos 70 para a K270 (moto de estrada) e cuja resistência foi então amplamente testada e divulgada num famoso teste de 15.000 km em 48 dias.

O problema da Casal não estava tanto no motor, mas antes em alguns componentes económicos de qualidade duvidosa ou pouco adaptados às características da moto. O escape era um obstáculo à performance, as jantes eram de fraca qualidade e o travão dianteiro era pouco potente. A suspensão Marzocchi era demasiado firme para a moto, valendo a pena procurar uma unidade equipada com a alternativa Betor. Dos vários carburadores usados na K276, o Mikuni é quase unanimemente considerado o melhor e mais fiável.


Honda CN 250 (Helix)


As scooter atingiram uma maior popularidade entre os principiantes a partir do momento em que se tornaram automáticas. Pode parecer aborrecido não ter de engrenar velocidades mas, na realidade, isso permite-nos imensas vantagens: mais atenção à estrada, mais tempo para apreciar paisagens, mais agilidade na cidade, melhor perceção do comportamento da moto e mais conforto.

Claro que muitas destas vantagens só são importantes no uso citadino e, no actualmente, a principal motivação de ter uma clássica é o lazer.

No entanto, esta foi a primeira scooter a ser pensada para uma utilização para lá das fronteiras urbanas, inaugurando o conceito hoje tão popular de “maxi-scooter”.

Se sempre invejou aqueles viajantes confortavelmente montados em grandes Goldwing, Pan-European ou BMW LT e quer viver essas sensações sem os custos ou a habilidade normalmente exigidas, esta scooter de aspecto estranho pode revelar-se um segredo bem guardado.

Não deixa se ser um bom veículo urbano, ainda que a posição de condução “refastelada” e o comprimento exagerado possam dificultar certas manobras.

Hoje a CN é um curioso objeto de design “retro-futurista”, com o seu estilo “TGV” sublinhado pelo painel de instrumentos digital bem completo, que inclui mesmo um avisador de intervalos de revisão!

É ainda muito prática, graças a um enorme e fundo porta-bagagens debaixo do banco e a um grande porta-luvas.

É importante procurar uma moto que tenha os componentes plásticos em boas condições, especialmente as partes menos brilhantes e o painel de instrumentos.

Para as partes mecânicas é fácil, ainda que nem sempre barato, adquirir peças de substituição. O monocilíndrico a 4T não é um portento, mas esse talvez seja o segredo da sua longevidade, já que parece relaxado mesmo à velocidade de ponta, perto dos 120km/h.

Quando em bom estado, a experiência de condução da CN (também conhecida como Helix noutros mercados) é gratificante. A direcção não é muito direta, em parte devido à longa distância entre eixos, mas o baixo centro de gravidade permite velocidades em curva consideráveis com inclinações surpreendentes.

Para isso, é fundamental que os pneus de pequeno diâmetro (pelos padrões atuais) estejam em boas condições. É normal sentir uma potência de travagem reduzida, quer no disco dianteiro, quer no tambor traseiro, que é accionado por pedal, como numa Vespa.


Yamaha TZR 125


Se o que o seduziu para as motos foi mesmo a competição e se está entre os 40 e os 50 anos de idade, então cresceu a ver motos cobertas de plástico com decorações vistosas.

Viu Kenny Roberts, Eddie Lawson e Wayne Rainey a domar feras de 500cc a dois tempos e tem saudades de cheirar óleo sintético bem queimado.

Mesmo que não fosse um piloto iniciado, seria má-fé recomendar-lhe as famosas TZR250, RZ250R ou, pior ainda, RD350. Basta pensar nas lendas arrepiantes que se contavam à porta do liceu sobre as “motas assassinas”. Mas se quer um pouco da estética dessa época a acompanhar um nível de performance acessível, então a TZR125 pode ser uma opção razoável e, principalmente acessível.

A velocidade máxima não será alucinante, nem sequer a velocidade de passagem em curva, mas o carácter de uma desportiva a dois tempos é algo que vale a pena recordar, usufruindo do estilo de condução “a espremer” que estes pequenos motores exigem e agradecem.

Aliás, é na faixa final de rotações que entra em cena o mítico sistema YPVS! Claro que com 26cv o “disparo” não é algo que o ponha a chorar pela mãe, mas a verdade é que esta válvula de escape dinâmica permite à TZR ter um motor “cheio” sem prejuízo de uma faixa final bem animada.

Existem duas versões da TZR que são tecnicamente iguais: a versão com carenagem integral e a “naked”. Se lhe agrada o estilo “GP replica”, seguramente preferirá a versão carenada, que também torna as deslocações em estrada aberta bem mais confortáveis e seguras.

Os modelos mais desejáveis em termos de decoração são os dos anos 87 a 89, com as clássicas combinações Yamaha de vermelho e preto sobre branco ou amarelo e branco sobre azulão.

Em qualquer caso é de privilegiar uma moto com os plásticos em bom estado ou facilmente recuperáveis e verificar se a dispendiosa “aranha” de suporte está em bom estado.

Estes motores são por natureza muito fiáveis, até porque foram concebidos para suportar os castigos impostos por adolescentes em busca do título de campeão da freguesia.

Mais digno de atenção é o estado do CDI, responsável pela gestão eletrónica da ignição. Se avariado, pode ser dispendioso de substituir ou reparar. Os materiais, excepção feita ao forro do banco, são de qualidade e duráveis. Uma zona sensível e difícil de reparar é a mesa do guiador, muitas vezes riscada por chaves e outros objetos. Os travões são eficazes e de fácil doseamento e as suspensões absorvem bem 95% das irregularidades.