“FAKE”: A MOSTRA DAS FALSIFICAÇÕES NO MAUTO

Na comunidade mundial de entusiastas de veículos históricos, “falsificação” é  uma palavra tabu: todos sabem que existe, mas ninguém quer falar sobre isso.

A 28 de junho de 2022 o MAUTO – o Museu Italiano do Automóvel em Turim –  pegou o touro pelos chifres e abordou esse tema difícil, mas fascinante.  Foi inaugurada a exposição temporária “FAKE: o automóvel entre a originalidade e a falsificação”, em cooperação com a ADM, a Agência Italiana de Alfândegas e Monopólio, para destacar este “lado negro” da paixão pelos veículos históricos.

Esta não é uma questão menor: só para dar um número, em 2021, apenas em Itália, a Agência ADM apreendeu mais de 36.000 peças entre automóveis, motocicletas, ciclomotores e peças de reposição, com um aumento de 300% em relação ao anterior ano.

Após as palestras institucionais de Benedetto Camerana (MAUTO) e Marcello Minenna (ADM), a exposição foi apresentada por um animado painel de discussão, liderado por David Giudici, diretor da revista “Ruote Classiche” e contou com historiadores do automóvel como Adolfo Orsi, gerentes de departamentos de património como Cristiano Bolzoni (Maserati) e Roberto Giolito (Stellantis), e representantes de marcas mundiais como Barbara Herlitzka (Martini & Rossi), Paolo Rezzaghi (Brembo) e Tomaso Trussardi (Trussardi).

Os palestrantes destacaram que a falsificação é uma praga que aflige não só os coleccionadores, mas toda a sociedade, escondendo fuga de impostos, criminalidade e riscos à segurança e saúde pública.

Como explicou o historiador Adolfo Orsi, o fenómeno não é recente nos automóveis de colecção. Na verdade começou já nos anos 60 e 70 e explodiu nos anos 80 com a popularidade de eventos como as Mille Miglia.

Hoje, no entanto, atingiu um nível diferente: especialistas estimam que um veículo histórico em cada quatro, no mundo, é falso ou fortemente modificado. É uma luta contínua entre “polícia e ladrões”: hoje, mais informações estão disponíveis, então as falsificações tornam-se mais sofisticadas e as técnicas de investigação também evoluem em paralelo.

Instituições, marcas internacionais e fabricantes de automóveis estão unidos no combate à falsificação, mas a verdadeira mudança só pode ser feita pelo público, com mais consciência.

Para identificar falsificações é sempre importante olhar não apenas para o veículo em si, mas também para sua história e documentação – um evangelho que a FIVA, a Federação Internacional de Veículos Históricos, vem pregando desde há muito, com a Carta de Turim e com o ID FIVA. Os cartões são ferramentas úteis para preservar a história dos veículos e sua originalidade para as gerações futuras.

Após o debate, a fita foi cortada e os visitantes puderam apreciar a exposição temporária, que começou com um carro esmagado num cubo de metal, uma forte lembrança para aqueles “que falsificam e desfiguram a história”, e continuou com um conceito interessante: autêntico e carros falsos lado a lado, para permitir que o público realmente entenda o problema.

Um Ferrari 750 Monza original de 1954, um Ferrari 250 GTE 2+2, umaTestarossa e até um Ferrari 312T5 de corrida, ao lado das suas réplicas (inconfundivelmente marcadas), permitiram um interessante jogo de “descubra as diferenças”, com a ajuda de legendas claras e exaustivas.

A exposição foi enriquecida com referências à cultura pop (em particular 007) e com outros veículos falsos como Vespas da China e um imponente Mercedes Benz 540K de 1936 vindo da coleção pessoal de Giovanni Agnelli.

Em poucas palavras, vale a pena ver a exposição “FAKE” no MAUTO: se visitar Turim entre 29 de junho e 28 de agosto, não perca.