PNEUS DE ÉPOCA: UM INVESTIMENTO CRUCIAL

Para se ter uma noção do quanto o mundo dos automóveis antigos cresceu nas últimas décadas – a favor dos entusiastas – basta apreciar o caso dos pneus.

Ter pneus novos com especificações vintage foi, durante décadas, impossível. Hoje é possível, mesmo para modelos estranhos ou protótipos únicos. Não importa o tipo, finalidade e montagem dos pneus para o seu clássico, provavelmente há um fabricante ou distribuidor especializado com uma solução.

O fabricante especializado Blockley Tire produz pneus sob medida para modelos de competição pré-guerra, como o Bugatti T35, enquanto marcas como Pirelli, Dunlop, Avon, Michelin e Vredestein oferecem reedições de alguns dos seus pneus historicamente populares, particularmente aqueles encontrados em modelos desportivos.

Nem sempre foi assim. No final do século passado, as opções eram escassas e inacessíveis.

Ken Gross, colaborador da Hagerty, escrevia a este propósito que os pneus de um Ferrari 275 GTB custavam, há 15 anos, mais do dobro do que custam hoje e que era comum ver automóveis de luxo pré-guerra com pneus de camião, já que não havia qualquer oferta no mercado com as especificações originais. Usar o material antigo e ressequido, também não era opção, devido à falta de segurança e conforto que proporcionavam.

Esse é o grande problema. Os componentes mecânicos não têm prazo de validade, mas com os pneus, a história é diferente.

E este não era um problema exclusivo dos modelos muito antigos. Bastava que a série  de um dado modelo fosse demasiado curta para justificar a continuidade da produção dos pneus específicos, para se tornar impossível resolver a questão. Foi esse o caso dos Jaguar XJ220 durante vários anos.

Mais do que uma questão de originalidade, este problema punha em causa a utilização, pois muitos modelos foram desenvolvidos em torno dos pneus que traziam de origem e vice-versa, o que condenava a sua segurança e eficácia quando se montava pneus de especificação diferente.

O desafio, para os fabricantes de pneus, era financeiro. Uma pequena tiragem de pneus ultrapassados ​​é, para a maioria dos fabricantes de grande porte, um fracasso financeiro.

“Um dos maiores entraves para a produção de pneus de pequeno volume é a dinâmica de manter o preço final baixo o suficiente para justificar sua venda”, explica Corky Coker. “Podemos muito bem fazer pneus de produção extremamente baixa em 500 a 1.000 de um tamanho específico, mas quantos proprietários estão dispostos a pagar pelos custos de produção? Esse pneu especial, de baixo lote, tem que custar três ou quatro vezes o custo de um pneu similar mais comum.”

Coker foi fundamental na resolução deste problema. Seu pai, Harold Coker, abriu uma empresa de pneus em 1958 e, em 1974, entregou a então pequena divisão “antiga” da empresa ao filho. Ele tornou os pneus vintage na especialidade da empresa. A Coker Tire agora está no topo desse espaço de fabricação paradoxalmente grande, mas de nicho.

Para a maioria das reedições, as ofertas da Coker são recriações individuais do design original do pneu, graças ao levantamento global da Coker de moldes de pneus antigos, principalmente das marcas Firestone e BF Goodrich. “A maioria dos fabricantes de pneus não teve a previsão de salvar esses moldes históricos”, lembra Coker. “Então, o que eu fiz foi encontrar as pequenas fábricas fora dos EUA que já tinham um contrato de licenciamento com Firestone, US Royal e BF Goodrich. Quando o contrato de licenciamento acabou, eles não se desfizeram deles e continuaram a usá-los com um novo nome. Enquanto isso, os principais fabricantes descartam os moldes desatualizados.”

Os desafios crescem à medida que os volumes diminuem. “É sempre uma questão financeira”, disse Coker. “Digamos que sou Édouard Michelin e tenho 350 fábricas em todo o mundo. Eu tenho um amigo muito bom que tem um Porsche especial e ele precisa de pneus para isso. Eu posso até querer ajudar, mas não faz nenhum sentido financeiro parar uma linha produção que faz 35.000 pneus por dia, para fazer 40 pneus. Simplesmente não é possível.”

A menos, é claro, que alguém esteja disposto a pagar para tornar isso possível. Para esse fim, a valorização dos valores dos carros clássicos tem sido útil. O Lamborghini LM002 é um bom exemplo. Só foram fabricados 328 exemplares e, assim que a produção terminou, a Pirelli deixou de fabricar os pneus. Com apenas 1640 rodas para calçar com um tipo de pneu muito específico e enorme, não fazia sentido manter a oferta no mercado. No entanto, os valores começaram a subir, e os LM002 começaram a cair nas mãos de coleccionadores dispostos e capazes de pagar mais pelas peças certas. Com a cotação destes todo-o-terreno a chegar aos 300.000€, a Pirelli retomou a produção e aceita encomendas para mínimos de cinco conjuntos a cerca de 15.000€ cada…

O importante é que hoje em dia há soluções para quase todos os modelos

Apesar disso, alguns fanáticos da originalidade ainda procuram pneus com data de fabrico da época do automóvel, apenas para uso estático, ou seja, exposições. Mas para desincentivar más-práticas e promover o uso activo dos automóveis históricos, os júris dos concursos deixaram de atribuir pontos com base na originalidade dos pneus.

Para lá das questões estéticas e de rigor histórico, as reproduções de pneus de época, têm a vantagem de oferecer as condições de aderência mais adequadas às características de um chassis datado – normalmente menos rígido do que os actuais – e beneficiam o conforto por terem paredes menos firmes que as dos pneus actuais.

Em jeito de conclusão, um pneu de época pode nem sempre ser barato, mas por todos os motivos imagináveis, são um investimento que o veículo histórico e os seus ocupantes merecem.

Fonte: Hagerty