60 ANOS DO TRIUMPH SPITFIRE

Não fosse pelos roadster e pelos familiares desportivos, e a Triumph talvez tivesse caído no esquecimento como apenas mais um fabricante extinto. A longa linhagem TR foi fundamental para cimentar uma fama mundial para a marca e, embora o TR4, de 1961, fosse já mais aburguesado, foi o cru e espartano TR2 o responsável por impor a Triumph em todo o mercado europeu e americano. De algum modo, o Spitfire representou, em 1962, um regresso a essas origens, complementado a gama.

Embora o Austin-Healey Sprite fosse visto como o rival natural do Spitfire, a verdade é que o Triumph foi concebido a partir de 1957, com o objectivo de atacar uma franja de mercado até então preenchida por pequenos construtores artesanais que desenvolviam modelos desportivos ao estilo kit-car com base, sobretudo, em componentes Ford e Austin. Por isso, este teria de ser um automóvel muito simples e barato de produzir, ainda que com um standard de qualidade superior. Isso só seria possível graças à economia de escala, por isso, a Triumph aproveitou o chassis do Herald e, encurtando-o, criou uma plataforma ideal para um pequeno roadster.

A aparência seria sempre determinante para o sucesso neste segmento e, como tal, a Triumph entregou a tarefa a um dos melhores: Giovanni Michelotti criou uma carroçaria bem mais elaborada e refinada do que as dos concorrentes, nomeadamente a do simpático mas espartano Sprite.

A braços com dificuldades financeiras , a Triumph retardou o lançamento até 1962, altura em que o modelo chega ao mercado com o nome Spitfire 4,  assim chamado devido ao número de cilindros. O motor era oriundo do Herald, com árvore de cames lateral e 1147cc, alimentado por dois SU HS2, debitava 63cv às 5750rpm, potência adequada aos 712kg do conjunto e suficientes para atingir os 150km/h. Os travões dianteiros de disco eram outro bom argumento.

A caixa de quatro velocidades não tinha primeira sincronizada e o overdrive em terceira e quarta passou a ser um extra muito requisitado a partir de 63. A suspensão independente estava cargo de triângulos sobrepostos na dianteira e a mola transversal com semi-eixos oscilantes. As variações de camber motivadas por esta solução simples e economicista, resultavam em derivas exageradas da traseira, sempre que se aliviava o acelerador em curva, tornando-o delicado de guiar nos limites.

O interior era cru, com tapetes em borracha, e a capota era de estrutura desmontável, o que tornava demorado o processo de abrir ou fechar.
O Spitifire 4 MkII trouxe um acréscimo de potência de 4cv, graças a uma nova cambota e a um novo colector de escape. Esteticamente, o redesenho da grelha e os tapetes de alcatifa foram as principais alterações.

A chegada do Spitifire MkIII (o número 4 desapareceu da designação) trouxe finalmente aquilo que muitos desejavam: um acréscimo de performance, graças ao aumento de capacidade do motor para 1296cc. A marca anunciava uns optimistas 75cv às 6000rpm e a velocidade máxima subiu para uns respeitáveis 165km/h.

A estética sofria também uma marcante mudança, com o pára-choques a subir para diante da grelha, o que resulta numa aparência mais leve e afilada. Os pára-choques traseiros aumentam ligeiramente e, a bordo, o painel com acabamento em madeira, o novo volante de três raios e a capota com estrutura de recolher, eram as principais novidades. Os travões receberam também uma actualização.

O maior salto evolutivo acontecia com o MkIV de 1974. O redesenho da frente e traseira foi acompanhado de um redesenho do interior e também de alterações na mecânica, no sentido de diminuir custos e beneficiar o regime do binário máximo. A perda de potência foi, alegadamente, de 12cv, mas foi compensado por modificações aos travões, agora com duplo circuito, e ao redesenho do sistema de mola transversal, diminuído as variações de camber.

A derradeira série foi pensada para o mercado americano. O Spitfire 1500 tinha um motor com maior curso, mais binário e relação final mais longa. A caixa de velocidades era derivada do Marina. A estética e a experiência de condução perderam a pureza.

A carreira do Spitfire apenas terminaria em 1980, ao cabo de 18 longos anos.